Partilho também alguns pensamentos sobre isto (o amor de Deus e a infelicidade), até porque este tema é tão velho como a existência de religiões sobre a Terra. A velha pergunta, que bem conhecemos, é pois: "Se Deus é bom, é justo e é todo-poderoso, como podem acontecer coisas más a pessoas boas?" De Abel a Estêvão, a Bíblia está cheia de episódios em que esta pergunta é feita, tantas vezes entre prantos e na escuridão espiritual de uma fé que é posta em causa. Tal-e-qual-zinho à nossa vida.
Não há, nunca houve nem haverá, uma resposta satisfatória a esta pergunta. A resposta clássica, e muito verdadeira, de que Deus respeita a liberdade até dos maus para fazer maldades, deixa de fora uma multidão de infortúnios da vida a que podemos chamar "azares". Mas o drama é que há destes azares que, sem que houvesse maldade de ninguém, têm na vida de quem os sofre a proporção de calamidades, acontecimentos que abalam tudo, que ferem fundo, que trazem de novo ao de cima a pergunta: "Mas porquê, meu Deus?!" A isto responderá Ele um dia, e não é disso que nos devemos ocupar.
Habituámo-nos a achar que os amigos de Deus não deviam ter problemas na vida, e não sei onde é que fomos buscar essa ideia. Sempre foi assim, desde a aurora das religiões, mas é um grande engano. Agora temos mais facilidade em perceber que é engano, porque sabemos que o próprio Filho de Deus sofreu e morreu injustamente, mas a meu ver permanece qualquer coisa dessa visão antiga da relação entre Deus e os Homens. Poderá ser útil a cada um de nós examinar os seus pressupostos sobre Deus, pois é quase sempre nos pressupostos que é introduzido o erro que depois se exponencia. "Assumption is the mother of all screw-ups", dizia o mau da fita de um filme que vi há muito tempo, mas a quem agradeço esta ideia chave que me tem sido útil para quase tudo. (Uma tradução livre da frase em inglês poderá ser: "A assumpção - os pressupostos - está na origem de todas as argoladas")
Assim sucedeu com os amigos de Job, nesse conto fantástico da Bíblia que tão bem retrata, aponta e corrige as maiores deficiência das religiões de todos os tempos. Sucede pois que estes senhores, e Job também, viviam imersos num universo de crenças assentes sobre três intuições fundamentais: 1) Deus existe e revela-Se aos Homens; 2) É bom para os Homens viver na amizade de Deus; e 3) Há uma maneira de viver que agrada a Deus. Tudo isto é verdade.
Porém, quando estas três intuições, de carácter etéreo e indefinido, deixam a boca dos "profetas" e se fixam através da pena dos "doutores da lei", transformam-se em crenças concretas por meio da transformação operada por pressupostos implícitos. É nesta passagem que as coisas correm mal, e aquelas três intuições transformam-se nestas três crenças: 1a) Podemos conhecer a Deus perfeitamente, conhecer o Seu pensar e prever o Seu agir; 2a) Aos amigos de Deus a vida correrá sempre de feição; e 3a) Podemos escrever uma lista de regras que, se estiverem "certas" e as cumprirmos todas, nos garantem a amizade de Deus.
Ora bem, facilmente reconhecemos o erro destas crenças, uma vez explicitadas. A primeira, no limite, dá talibans; a segunda dá amigos da onça, e a terceira pode dar fariseus. Mas também reconhecemos que algo de muito pragmático em nós, muito terreno e carnal, nos puxa para elas. Nós têmo-las em nós, somos influenciados por elas na relação que temos com Deus, e isto porque a cultura ainda não as ultrapassou, e mesmo que as ultrapassasse seriam sempre um desafio novo de fé e de amor para cada pessoa. Acreditar, como nos ensina S.Paulo, que "Deus concorre com tudo para o bem dos que O amam", é um salto qualitativo de fé que exige "travar o bom combate", às vezes só Deus sabe no meio de quanta escuridão interior.
"Então, do seio da tempestade, o Senhor tomou a palavra e disse: «Quem é aquele que obscurece a Minha providência com discursos sem inteligência?»" (Job 38,1)
Citando o nosso amigo Chesterton: "Prezados senhores: eu!"
Cumprimentos a todos e boas reflexões
Miguel CC