
Da introdução ao livro «Espera de Deus», de que foi apresentado o texto «O amor de Deus e a infelicidade», da autoria de José M. Pacheco Gonçalves:
«Uma última palavra sobre Simone Weil e Portugal. O leitor encontrará aqui a confidência que ela faz ao padre Perrin sobre três «contactos verdadeiramente significativos com o cristianismo». O primeiro deles tem lugar numa praia do norte de Portugal, em noite de lua cheia. Literalmente esmagada pela experiência de desventura que o trabalho na fábrica lhe havia causado, Simone é testemunha, quase acidental, de uma procissão de velas que as mulheres dos pescadores, gente pobre já se vê, realizava à volta dos barcos, entoando cânticos «decerto muito antigos, de uma tristeza dilacerante», «pungente», só comparável à música dos barqueiros do Volga. É então que ela recebe uma luz que a guiará até ao fim dos seus dias: dá-se conta de que a religião de Cristo crucificado é, não pode deixar de ser, a religião universal de todos os homens e mulheres, de todos os tempos e condições, marcados pelo ferro em brasa da desventura, da desgraça, do malheur (que o nosso vocábulo infelicidade não consegue exprimir).
Para Simone Weil, aderir a esta «religião dos escravos» não significa alienar-se numa forma religiosa opressiva e desumanizadora. (…) [Simone] manter-se-á fiel à máxima «sem submissão e sem revolta», por ela recordada nestas páginas. Desde há muito que ela descobrira em Ésquilo que é pelo sofrimento que se chega ao conhecimento («par la souffrance, la connaissance», escreve ela, repetidas vezes, nos Cadernos, quase sempre na fórmula original grega). E convicta de, como a Antígona de Sófocles, ter nascido «para partilhar o amor e não o ódio» (outra expressão que lhe é cara), Simone Weil encontra no Crucificado a chave do conhecimento, a via da verdade, a porta da alegria interior, que não a separa da massa dos desventurados de todos os tempos. O episódio teve lugar a 15 de Setembro de 1935. Os pais de Simone Weil estavam a passar uns dias de férias no Hotel Santa Luzia, no monte que domina Viana do Castelo. Simone optou por uma modesta pensão, em baixo, na cidade. Dando umas voltas pelas redondezas, desceu até à Póvoa do Varzim, onde naquele dia, domingo, se celebrava a Senhora das Dores. A aldeiazinha referida é provavelmente Caxinas, a caminho de Vila do Conde. Simone Weil tinha então 26 anos. Os oito que lhe restavam de vida não passariam em vão, como provam os textos de Espera de Deus. Em correspondência à intervenção mais social e política de outros escritos desta fase final, a sua desperta atitude de atenção e espera foi magnificamente gratificada. Isso porque, como ela recorda nos textos aqui propostos, é Deus que procura o homem, que o espera, exausto, sob o sol do meio-dia, junto ao poço de Jacob.
«Uma última palavra sobre Simone Weil e Portugal. O leitor encontrará aqui a confidência que ela faz ao padre Perrin sobre três «contactos verdadeiramente significativos com o cristianismo». O primeiro deles tem lugar numa praia do norte de Portugal, em noite de lua cheia. Literalmente esmagada pela experiência de desventura que o trabalho na fábrica lhe havia causado, Simone é testemunha, quase acidental, de uma procissão de velas que as mulheres dos pescadores, gente pobre já se vê, realizava à volta dos barcos, entoando cânticos «decerto muito antigos, de uma tristeza dilacerante», «pungente», só comparável à música dos barqueiros do Volga. É então que ela recebe uma luz que a guiará até ao fim dos seus dias: dá-se conta de que a religião de Cristo crucificado é, não pode deixar de ser, a religião universal de todos os homens e mulheres, de todos os tempos e condições, marcados pelo ferro em brasa da desventura, da desgraça, do malheur (que o nosso vocábulo infelicidade não consegue exprimir).
Para Simone Weil, aderir a esta «religião dos escravos» não significa alienar-se numa forma religiosa opressiva e desumanizadora. (…) [Simone] manter-se-á fiel à máxima «sem submissão e sem revolta», por ela recordada nestas páginas. Desde há muito que ela descobrira em Ésquilo que é pelo sofrimento que se chega ao conhecimento («par la souffrance, la connaissance», escreve ela, repetidas vezes, nos Cadernos, quase sempre na fórmula original grega). E convicta de, como a Antígona de Sófocles, ter nascido «para partilhar o amor e não o ódio» (outra expressão que lhe é cara), Simone Weil encontra no Crucificado a chave do conhecimento, a via da verdade, a porta da alegria interior, que não a separa da massa dos desventurados de todos os tempos. O episódio teve lugar a 15 de Setembro de 1935. Os pais de Simone Weil estavam a passar uns dias de férias no Hotel Santa Luzia, no monte que domina Viana do Castelo. Simone optou por uma modesta pensão, em baixo, na cidade. Dando umas voltas pelas redondezas, desceu até à Póvoa do Varzim, onde naquele dia, domingo, se celebrava a Senhora das Dores. A aldeiazinha referida é provavelmente Caxinas, a caminho de Vila do Conde. Simone Weil tinha então 26 anos. Os oito que lhe restavam de vida não passariam em vão, como provam os textos de Espera de Deus. Em correspondência à intervenção mais social e política de outros escritos desta fase final, a sua desperta atitude de atenção e espera foi magnificamente gratificada. Isso porque, como ela recorda nos textos aqui propostos, é Deus que procura o homem, que o espera, exausto, sob o sol do meio-dia, junto ao poço de Jacob.
Carmo

