sábado, 23 de janeiro de 2010

A minha Bíblia

Olá a todos, caros leitores (assíduos?) deste blog (e brevemente também contribuidores, assim se espera...)

Por sugestão muito oportuna da Mª do Carmo, pareceu-me boa ideia contar aqui no blog, para quem quiser saber, a história da minha Bíblia. Agora que o Paulo tanto se esforça e gasta do seu precioso latim para nos animar a descobrir a Sagrada Escritura, será porventura o momento oportuno para deixar o meu testemunho, até onde as palavras forem capazes de transmitir o que quero transmitir.

Por alturas dos meus 15 aninhos, quando recebi o Crisma, os meus pais deram-me de presente uma Bíblia; sei que já contei isto, mas não sei se a todos. Bom, agradeci com um sorriso meio amarelo, pensando interiormente que preferia mil vezes uma bicicleta, e pu-la para um canto qualquer. Poucos anos depois, não sei se uns 2 ou 3, alguém me sugeriu que fizesse uma leitura integral do Novo Testamento, uns minutinhos por dia, coisa pouca. Já não sei se foi logo, mas lá me fiz à água e comecei, aos soluços, sem muita fidelidade nem grande interesse. Mas a Palavra lá foi ecoando e mostrando a beleza que traz logo abaixo da epiderme, e quando cheguei ao fim do Apocalipse (último livro da Bíblia) a pena de já não haver mais virou-se em resolução e comecei a ler mesmo do princípio, desde o Génesis, e por aí fora de novo até ao Apocalipse. Foi coisa para uns 3 anos, ainda sem grande regularidade mas já com muito mais interesse. A Bíblia tornou-se, sob todos os critérios, o meu livro preferido.

Um salto no tempo de mais uns 2 ou 3 anos leva-nos salvo erro até finais de 2003. No bar da associação de estudantes do Técnico, passava um telejornal em que se relatava a iniciativa "Bíblia manuscrita nas escolas", em que de alto a baixo do país, nas escolas, cada aluno que o quisesse poderia copiar um versículo da Bíblia, reunindo-se depois o todo num grande volume. Esta iniciativa veio ainda a dar origem à "Bíblia manuscrita", desta feita aberta a toda a gente. Mas antes ainda disso, fez-me passar pelo vácuo craneano uma brisa que sussurrou "E se... que bonito que seria..." É claro que a ideia entrou a 100 e saiu a 1000, como se costuma dizer, visto toda a logística ser de proporções avassaladoras. E portanto, a ideia louca que por momentos me alucinou de copiar a Bíblia à mão tão depressa veio como foi. Mas... não foi! Foi-me visitando de vez em quando, dançando na minha cabeça, e de cada vez que vinha levava mais tempo a ir-se embora. E eu sem saber que bicho me mordeu! Mas lembro-me que estas idas e vindas desta ideia peregrina se foram tornando mais frequentes, como que numa espiral convergente. E a convergência deu-se mesmo certo dia, em que de uma vez por todas disse para mim mesmo: "Siga a marinha, isto vai-me dar que fazer!" Era o dia 30 de Maio de 2004, domingo de Pentecostes.

Comecei então nesse dia, sem ideia nenhuma quanto à formatação desejada, objectivos diários, prazos, RAZÃO DE SER daquela resolução, mas apenas com a certeza de que a seu tempo iria descobrindo tudo isto, e que para já era só tempo de andar para a frente. Comecei sem perceber muito bem porquê, continuei porque tinha começado, e vim a acabar porque nunca deixei de continuar. Aprendi a humildade de encontrar alegria nos pequenos avanços, na insignificância que é o tudo de cada instante. Isto é um tesouro! Aprendi a nobreza da fidelidade, aprendi a dureza da nobreza e o crescimento que advém da dureza.

Com o tempo, os contornos práticos foram-se definindo. Comecei por copiar cada dia o que calhava, mas em breve resolvi arbitrar que seriam 30 versículos por dia. Comecei a registar numa folha de cálculo de excel os avanços diários, folha essa que veio a desenvolver-se até funções mais complexas, como por exemplo estimativas de quando terminaria. Pouco tempo antes, e de forma totalmente independente desta aventura, tinha-me dado para inventariar os versículos da Bíblia, ou seja, quantos versículos há em cada capítulo de cada livro. Quando comecei esta nova folha de cálculo, estes dados foram providenciais! Esta funcionalidade da folha de cálculo permitiu estimar que acabaria a Bíblia em cerca de 3 anos e meio, e pareceu-me então que poderia tentar apontar para terminar em alguma data especial, mais ou menos dentro desta estimativa temporal. Passei por várias versões, umas mais patetas que outras, até que me fixei, não numa data, mas numa duração: 40 meses, que são 3 anos e 4 meses. Feitas as contas, isso dava o dia 29 de Setembro de 2007, data que habitou o meu imaginário durante todo este tempo. Porquê 40? Porque 40 é o número simbólico que indica uma maturação, uma preparação para algum acontecimento grande, um tempo que intervala os actos de "semear" e "colher". Uns 2 anos mais tarde, vim a saber que 29 de Setembro é o dia de S.Miguel e véspera de S.Jerónimo, e achei muita graça à "coincidência".

Uma outra coincidência foi que, dividindo os 35560 versículos por 1218 dias, isso dava 29.19 versículos por dia, o que deu muito jeito visto que uns meses antes tinha arbitrado ao calhas que seriam 30. E assim se foi passando o tempo, ora mais fiel ora mais imprevisível, ora mais entusiasmado ora menos. Cheguei a pensar desistir mais do que uma vez, sobretudo quando se metiam as infernais épocas de exames (tirei engenharia mecânica no Técnico...), e houve até um período de mais de um mês, o primeiro Verão, em que a coisa esteve parada. Mas o encanto deste envolvimento tão profundo e pessoal, desta intimidade tão conseguida com a Palavra de Deus, levaram-me sempre a voltar e a aprender a tenacidade, outro tesouro. Com o tempo, as oscilações foram diminuindo, e cada vez mais foi crescendo a constância da fidelidade. Tem muita graça hoje olhar para um gráfico que fui fazendo, o qual representa aquilo a que chamei "margem de vantagem", ou seja, a diferença entre o sítio onde era suposto estar e o sítio onde estava, que começou com grandes convulsões para cima e para baixo e acabou quase numa linha recta.

E assim vivi com esta companhia todas as coisas que fizeram parte da minha vida durante 40 meses. Viagens a muitos sítios, e lá iam a Bíblia e o bloco atrás. Escrevi grande parte em aeroportos, tendas de campismo e hotéis, camionetas e aviões, balcões de cozinha, capelas e catedrais, em cima do joelho e no chão, em minha casa e nas de amigos, à luz de velas, lanternas, candeeiros banais, faróis de carros, lamparinas, lua cheia (desaconselho, força muito os olhos), fogueiras, lareiras e candeeiros de rua. Mas todas estas luzes serviram o mesmo e único propósito.

Acabei na data certa, entre amigos, em casa do Pe Tolentino, e fizemos grande festa. Mandei encadernar e decorar, e fiz eu mesmo o expositor em que a tenho no meu quarto. É para mim, sempre que a olho, uma ternura muito grande e um testemunho de como Deus vai conduzindo a nossa história de formas... incompreensíveis. E com isto, não posso senão juntar o meu testemunho às exortações do Paulo e dizer: leiam a Bíblia, que acho que vão gostar!

Beijos e abraços a todos
Miguel

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A Bíblia Ama Esconder-se



Aproveitei o título do último mail do Paulo para ilustrar esta "fotografia de família" do nosso grupo das quinta-feiras. O Miguel mostrou-nos "uma" bíblia, a "sua" bíblia, que não se pode esconder. Mais do que isso, mostrou-nos um empenho, uma paixão que não se deve mesmo esconder. Confesso que fiquei (ficámos) arrebatado!

Em duas linhas, durante 40 meses, o Miguel transcreveu à mão a bíblia. Foram 30 versículos por dia, todos os dias, em todas as ocasiões, em todas as partes do mundo. Percebemos por ele, que mais do que a transcrição diária, o que mais ficou foi o momento diário de recolha, de meditação, de oração.

Fica o exemplo. Até quinta!
João Nascimento