sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Dostoievsky - O sonho de um homem ridículo


No conto fantástico de Dostoievski «O sonho de um homem ridículo», ele diz a certa altura:

«O céu estava terrivelmente escuro, mas podiam ver-se as nuvens e, entre elas, manchas negras insondáveis. Subitamente, numa dessas manchas negras, notei que havia uma pequenina estrela, e pus-me a olhar para ela fixamente. Foi porque aquela pequenina estrela me dera uma ideia: decidi matar-me nessa noite.»

E, um pouco mais à frente:

«Claramente, a vida e o mundo afiguravam-se-me naquele momento como dependentes de mim. Pode mesmo dizer-se deste modo que, naquele momento, o mundo era como se tivesse sido feito só para mim: mato-me e o mundo não existe mais, pelo menos para mim. Sem falar já do facto que, talvez fosse verdade que não existisse nada para ninguém depois de mim, e que o mundo inteiro, assim que a minha consciência se apagasse, apagar-se-ia de imediato como um espectro, um atributo só da minha consciência, e deixaria de ser, porque talvez, o mundo no seu conjunto e todos esses homens, no fundo, são apenas só eu…»

A 'pequenina estrela' que faz tomar uma decisão. Neste caso, terrível, mas que abriu uma brecha nesse sentir 'que a vida e mundo estavam dependentes só de mim', ou talvez mesmo que não existisse nenhuma realidade objectiva.

Penso que, por vezes, sem nos darmos conta, vivemos neste isolamento, neste individualismo, em que não deixamos entrar nada nem ninguém nos nosso 'esquema'. De alguma forma é parecido com um 'suicídio'.
Creio que Deus faz passar muitas 'pequeninas estrelas' pela nossa vida.
Penso que o caminho de descoberta da fé vai muito do saber parar e reparar nessas 'pequeninas estrelas'. É um processo progressivo, uma aprendizagem não apenas de conteúdos, mas de ser na vida, numa relação que se abre e deixa interpelar, na disposição de mudar, de se deixar iluminar pela grande estrela que é Deus.
Carmo

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