sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Ortodoxia - Chesterton


Chesterton, no seu livro Ortodoxia, em que relata a sua caminhada em direcção à descoberta da fé cristã, no final do Capítulo IV (A ética da terra dos contos de fadas), faz uma recapitulação de vários passos enunciados até aí:

«E assim termina, em inevitável inadequação, a tentativa de falar de coisas inefáveis. Esta é a minha atitude definitiva em relação à vida: o solo arável para as sementes da doutrina. Foram coisas que, de uma maneira obscura, pensei antes de conseguir escrevê-las, e que senti antes de conseguir pensá-las; a fim de podermos prosseguir com mais facilidade, procederei agora à sua rápida recapitulação. Tive a profunda sensação, primeiro, de que o mundo não se explica a si mesmo. Poderá ser um milagre para o qual haja uma explicação sobrenatural; poderá ser um truque de prestidigitação, para o qual haverá uma explicação natural. Mas, para me satisfazer, a explicação do truque de prestidigitação terá de ser melhor do que as explicações naturais que já me deram. Isto é mágico, seja verdadeiro ou falso. Em segundo lugar, cheguei à conclusão de que a magia tinha de ter um sentido e de que esse sentido tinha de ser conferido por alguém. Havia no mundo qualquer coisa de pessoal, como numa obra de arte; qualquer que fosse o sentido, era conferido de forma violenta. Em terceiro lugar, considerei que esse sentido era belo no seu desígnio primevo, apesar de defeitos que tinha, nomeadamente os dragões. Em quarto lugar, que a forma própria da nossa gratidão se encontra numa certa humildade e contenção: a maneira de mostrarmos a Deus que nos sentimos gratos pela cerveja ou pelo vinho de Borgonha, é não bebermos demasiada cerveja nem demasiado vinho. Ale de que devíamos obediência a quem nos tinha feito. Por fim, e este é o aspecto mais estranho, tinha a vaga e vasta impressão de que, em certo sentido, todo o bem era um salvado de uma espécie de ruína primordial, um salvado que tinha de ser preservado e tido como sacrossanto. Que os homens tinham salvado o seu bem como Crusoe tinha salvo os seus objectos – que os tinha resgatado de um naufrágio. Tinha todas estas impressões, impressões que os tempos de maneira nenhuma estimulavam. E, até este momento, não me tinha passado pela cabeça um pensamento que fosse sobre a teologia cristã.»

Chesterton está a falar da sua infância, da maravilha do 'terra dos contos de fadas', onde diz ter aprendido, ou melhor, experimentado, todo o essencial da vida. Aquilo a que normalmente chamamos realidade é muito redutor, relativamente a uma outra 'realidade' (aquilo a que chama 'magia') que essa, sim, pode conter todos os sentidos, mesmo sob a forma de paradoxos, e, no final, fazer todo o sentido.
Para mim, tenho que as crianças possuem um sentido 'instintivo' do sobrenatural e, portanto, da harmonia da vida. Mas, rapidamente, a 'realidade estreita' lhes ensina a mutilar essa grande capacidade.
Lembro-me de entrar para a escola primária, ainda não com 6 anos e, no recreio, brincar com outros 'às aventuras': fazíamos viagens a países onde havia 'monstros' (os arbustos que cresciam nos canteiros); vencíamos os 'monstros' de cada vez que conseguíamos com um esforço imenso, derrubar uma pernada de algum deles a golpes de espada imaginária. Havia pedras protectoras (em cima delas, estávamos a salvo). Ganhar era derrubar o maior número de monstros sem, claro, estragar muito os canteiros (haveria consequências um pouco gravosas para nós). O regresso à sala de aula para aprender o que quer que fosse, era como 'mudar de mundo', um mundo um tanto fastidioso. Era interessante, mas longe de ser apaixonante e tão real como o mundo dos 'monstros e das pedras protectoras'.
Que são hoje para nós os 'monstros', os de fora e os que habitam dentro? E quais as nossas 'pedras protectoras'? Será possível traduzir isto em termos da realidade apaixonante da fé cristã?
Carmo

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